Metarregras de repetição e progressão

 

O linguista francês Michel Charolles é responsável pela criação de uma teoria tida como clássica, ainda que lacunosa em alguns aspectos, acerca da coerência textual.

Genericamente, ele notou que ao corrigirem as produções textuais de seus alunos, os professores franceses faziam determinados apontamentos e críticas destituídos de rigor, de sistematicidade.

Decorrente dessa preocupação, Charolles diz que é preciso dotar o professor de um instrumental, de alternativas pedagógicas, que contribuam para intervenções mais rigorosas e sistemáticas sobre o texto desse aluno, especialmente no que diz respeito à coerência.

É importante ressaltar que Charolles não faz uma distinção rigorosa entre coerência e coesão textual, embora outros estudiosos a façam.

Como recurso ele propõe as metarregras, isto é, aquilo que faz o texto um texto. Existem quatro: metarregras de repetição e progressão, metarregra de não contradição e metarregra de relação. Vamos nos ater às duas primeiras neste post.

No entanto, já discutimos sobre outros aspectos gramaticais no blog, como as colocações pronominais, aposto, vocativo, próclise, ênclise e mesóclise, as figuras de linguagem, dentre elas as figuras sintáticas ou de construção, onomatopeia e polissemia, além da análise feita sobre o neologismo na língua portuguesa e os tipos de sujeitos existentes em uma oração.

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O conhecimento das metarregras de repetição e progressão auxilia a articular as ideias no processo de produção textual.

Metarregra de Repetição

“Para que um texto seja (microestruturalmente e macroestruturalmente) coerente é preciso que contenha, no seu desenvolvimento linear, elementos de recorrência estrita”.

Por microestrutura se entende o nível da frase, da oração e do período. Já por macroestrutura, o texto é compreendido como todo, sendo este gerador de sentido. Os mecanismos apresentados abaixo certificam a coerência textual.

  1. Pronominalização:

É a substituição de um nome ou sintagma nominal por um pronome (pessoal, possessivo, demonstrativo). Ex: Comprei um livro à Comprei-o.

  1. Definitivações e as referenciações dêiticas contextuais:

Refere-se à repetição de uma mesma palavra como geradora de coerência e, portanto, de coesão (já que Charolles não faz distinção entre os dois conceitos).

Isto acontece quando não há um sinônimo para a palavra ou quando sua repetição torna-se estratégica (seja para dar ênfase àquele termo ou por uma questão estilística). Ex: No sítio há um pomar. O pomar é bem cuidado.

  1. Substituições lexicais:

Quando há substituição de um termo por outro através de sinônimos, hiperônimos, hipônimos, elipse ou por retomada do epíteto. Ex:

A demanda por aquela blusa é alta. à A procura por aquela blusa é alta. (sinônimo)

Milton Santos é um intelectual brasileiro. à O geógrafo é responsável por diversos estudos importantes. (epíteto)

  1. Recuperações pressuposicionais e Retomadas por Inferências:

Continuação textual coerente com sua respectiva sequência inicial. A recuperação pressuposicional atua nos conteúdos semânticos não manifestos que devem ser reconstruídos para que apareçam, explicitamente, as recorrências.

Frequentemente, os alunos estabelecem inferências que supõem serem óbvias ou legitimamente não assumidas, ou que estão contraditas dentro do próprio texto.

Ex: “Quando fundaram a empresa, os irmãos não imaginavam que em apenas 10 anos [ela] se tornaria uma das maiores do setor. Hoje [eles] exportam produtos para 30 países e se preparam para entrar no competitivo mercado europeu”.

Os termos entre colchetes não estão presentes no excerto original, no entanto, é possível inferi-los através do contexto e das desinências verbais.

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O desconhecimento das metarregras de repetição e progressão pode tornar o texto incoerente e mal construído.

Metarregra de Progressão

“Para que um texto seja microestruturalmente ou macroestruturalmente coerente, é preciso que haja no seu desenvolvimento uma contribuição semântica constantemente renovada”.

Entende-se por esta metarregra que é necessária a adição de sentido propriamente dita, constantemente, ao longo do texto. Os dois exemplos a seguir elucidam, de maneira bastante didática, o que é e o que não é considerado metarregra de progressão.

1º exemplo: “A televisão é muito importante na vida das pessoas, ela nos fornece informações muito importantes de lugares muito distantes. Com a televisão, a vida ficou muito mais interessante através dos programas jornalísticos que têm a função de nos informar sobre o Brasil e o mundo, com ela podemos jogar vídeo game, assistir diversos programas jornais, filmes, desenhos. A TV é um meio muito especial na nossa comunicação”.

A despeito de eventuais inadequações gramaticais com as quais não estamos lidando aqui, observe que as informações grifadas nada acrescentam semanticamente ao texto como um todo, apenas trazem informações redundantes ou que já puderam ser inferidas pelos períodos anteriores.

2º exemplo: Integrar minorias historicamente excluídas das benesses da modernidade é apenas uma das frentes para corrigir os problemas de um pesadíssimo passivo colonial. E tão necessária quanto a luta contra a desigualdade social é a batalha pela descolonização cultural, que deveria levar a uma valorização das culturas ameríndias e afro-brasileiras, não apenas como influências sobre o que somos hoje, mas sobretudo como alternativas para o que queremos ser no futuro.

Os termos destacados reconstroem semanticamente conteúdos não explicitados, ressignificando-os ao mesmo tempo em que retomam a ideia trabalhada, sem repetição ou incoerências.

Evidentemente, o uso de metarregras desenvolvido por Michel Charolles como alternativa pedagógica, é um estudo, uma proposta, direcionada a professores como tentativa de tornar suas intervenções sobre as produções textuais de seus alunos mais objetivas. Isto não impede que um indivíduo interessado no tema o estude.

Dito isso, o texto indicado para quem deseja se aprofundar na teoria do linguista francês é “Introdução aos problemas da coerência dos textos” (abordagem teórica e estudo das práticas pedagógicas).

Com muita prática e treino fica fácil saber utilizar corretamente as metarregras de repetição e progressão, para fazer com que seu texto ganhe em qualidade e objetividade!

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